Tuesday, April 25, 2006

A arte de Nobuo Mitsunashi

Thursday, March 23, 2006

na roda: a africanização de luiza

fomos lá, o filósofo nietzschiano canadense-brasileiro jason manuel e eu, para dentro do centro cultural da ufmg, para acompanharmos o lançamento da revista “roda”, do festival de arte negra de belo horizonte (fan).
o rique estava lá, estava lá a veneranda e simpática maria antonieta (não aquela da revolução francesa, mas esta outra: a que já inscreveu sua história à frente da gestão pública da cultura em belô).
de repente, assim, do nada, luiza me aparece. a moça branca do orkut me parece preta, de repente. preta ela não é, mas minha demanda de pretura traduziu seu bronze numa espécie de adinkra que queria dizer: “a vida é cheia de desvios, curvas, altos e baixos”.

e lá fomos nós, depois, o filósofo e eu, com nossa preta luiza, já africanizada pelo meu sonho desejante, para uma sessão culinária no maletta. não uma sessão culinária da libido, mas esta outra, do estômago e das vísceras complementares, do sistema digestório. aí eu quis beijar a boca dela, mas resisti, vencido pelo molho à bolonhesa que ocupava a minha boca. acho que também não rolaria mesmo. eu estava suado, sem meu roll-on na bolsa, cansado e até um tanto entediado pelo que belô passou a significar para mim: um ligeiro mal-estar. e me sentindo feio como costumo me sentir.

mais tarde, a puta milena – bolonhesa? -, loura, linda e giganta, sorriu para mim. eu sorri também. a roda da áfrica, esta continuou a bater e bate até agora. luiza.


(imagem capturada de Sabor Graxa)

Tuesday, January 17, 2006

A CARNE MAIS BARATA E O CARA DE SERTÂNIA

A curadoria do Festival Internacional de Arte Negra (FAN), que acontece mais uma vez este ano, em Belo Horizonte, me convidou para escrever uma resenha do livro "Contos Negreiros", de Marcelino Freire, uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea, pelo menos da vertente do realismo urbano que ganhou corpo nos últimos anos. O texto será para uma revista do FAN.

Afundado em compromissos acadêmicos, como mestrando com defesa de dissertação já agendada e o cão furioso do tempo (para retomar, modificada, aquela imagem usada pelo nosso velho Henfil) no meu pé, anteontem corri os olhos no livro de Marcelino, inquieto nordestino de Sertânia, interior de Pernambuco, agitador performático nos circuitos culturais de São Paulo.
O estranho é que o livro me chegou às mãos justamente no sábado em que passei pelo chamado Quarteirão do Soul, na rua Goitacazes, entre São Paulo e Padre Belchior, em Belo Horizonte. Lá, negros, alguns deles moradores de rua, dançam na calçada ao som de James Brown e outras vozes da "alma black". O "soul", lembram-se?, pegou até o "rei" Roberto Carlos nos anos 70, em canções como "Jesus Cristo", antes das baladas babosas que iriam tomar conta de seu repertório.

Era sábado. Corri os olhos no livro e ainda não me detive, mas já senti uma fisgada aqui, na carne, uma fisgada daquela outra carne, a que está ali, nas páginas brancas acomodadas no design de Silvana Zandomeni.

"A carne mais barata do mercado é a carne negra/ que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico/ e vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos", diz a canção de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Cappellette. Eu a ouvi na voz negra de Elza Soares, num desses dias em que minha demanda de pretura se sentiu feliz, alimentada.

Mas essa referência à carne me leva mais longe, a outro "bróder", o barroco Padre Vieira, que, certa vez, lembrou que os antigos costumavam ler o futuro nas entranhas de animais mortos. Essa leitura, comentava o padre, era uma superstição, claro, mas fazia sentido, sim, porque é na carne dos sofredores que está a verdade.

Verdade é uma palavra com lugar mais preciso na consciência barroca do século XVI do que no pensamento laico da contemporaneidade, mas não deixa de ter seu lugar, ainda que matizado, dúbio. Mas eu, de laico não tenho nada; estou mais é imantado pelo conteúdo de outra canção, do paraibano Babilak Bah e minha, que diz: "Jesus não xinga Xangô/ Xingu, nosso Xangri-lá". De qualquer forma, para não cairmos em discussões sobre que verdade é essa de que se fala, poderíamos dizer de outro modo: na carne de quem sofre está a história, essa outra, que escapa ao registro oficial.

É verdade (?) que certos turistas sexuais – eles estão no conto negreiro "Alemães vão à guerra" – restringem sua demanda de pretura à demanda de carne, no caso, para uso culinário, dessa culinária metafórica produzida pela libido.

Mas nós, que acreditamos na outra história, essa fora dos registros oficiais, sabemos que a carne mais barata do mercado, por guardar tantas letras, tantas vozes de sofrimento – e de beleza – também inscritas nela, já se transformou em outra coisa. Em corpo, que –conforme disse um certo francês que se embriagava de barroco e psicanálise – é a carne povoada pela palavra, pelo sentido, pela cultura. Eu diria mais: essa carne negra, barata ou não, deve ser lida como gente, essa "coisa" que, ao ser tocada, faz que algo estranho aconteça. Como escreveu Ulisses Tavares: "uma coisa muita estranha acontece/ quando se toca em gente./ Experimente". Mais ou menos assim.

Monday, January 09, 2006

ABRIGO E DESABRIGO DA CANÇÃO

Pausa nas questões políticas e nos territórios do humano que tenho abordado aqui. Hoje, o assunto é canção. E poesia. Abrigo e desabrigo da canção, margens de linguagem, fronteiras de leitura e de mercado.

"É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão", canta Caetano Veloso, aproveitando-se do discurso – para alguns, nazistóide – do filósofo Heidegger. Os versos do baiano apontam para uma coisa: que o lugar da canção não teria a mesma espessura, a mesma profundidade, que aquele da filosofia. Como só a riqueza do sistema lingüístico germânico seria capaz de, na contemporaneidade, abrigar o pensamento filosófico, segundo Heidegger, então o cantor escaparia para esse espaço menor, menos pretensioso, da canção.

Os versos fazem lembrar uma entrevista de Caetano a uma edição do programa “Livro Aberto”, da Rede Minas de Televisão, que discutia as relações entre poesia impressa e canção. “Letra de música é ou não é poesia?”, era a pergunta, ainda que não expressa exatamente nesses termos. A essa questão, que sempre volta à baila entre o pessoal do ramo, o baiano respondeu mais ou menos o seguinte, bem ao seu estilo: “É e não é. A letra de música não tem as grandes responsabilidades que tem a poesia de livro. E preserva certas coisas que já não têm lugar na poesia, como a rima e o tema do amor. Por outro lado, justamente por não ter grandes responsabilidades nem grandes pretensões, às vezes produz coisas geniais que escapam à poesia”.

A fala do baiano traduz mais ou menos o que penso. A poesia de livro, sabemos bem, foi exilada do dia-a-dia da sociedade, do mercado de consumo de bens culturais, e se restringe à “seita dos 3.000”, expressão cunhada pelo escritor paulista Marçal Aquino para traduzir o minguado universo de leitores no Brasil. É interessante, também, como certas pessoas são capazes de dizer que não entendem certos poemas de uma clareza quase matutina e acham graça de certos lirismos, que lhes parecem pueris, e, ao mesmo tempo, refestelam-se com puerilidades equivalentes encontradas em canções. Essas mesmas pessoas podem ser capazes também, por exemplo, de curtir trabalhos musicais com letras complexas, como “Avohai”, de Zé Ramalho, grande sucesso popular. E não têm paciência para trabalhos estritamente instrumentais. Sentem sede da palavra, por mais banal que seja, por ser o elemento que nos leva à pátria doméstica da língua.

Há, claro, uma explicação, digamos, técnica, para essas aparentes ambigüidades de recepção. Canção e livro são universos “semióticos” (isto é, de sistemas de signos, de componentes de significação) distintos, ainda que aparentados. Quem ouve uma canção, normalmente se deixa levar pelo fio melódico ou pela sonoridade das palavras e, aí, a significação dos versos tende a se retrair ou, então, a se diluir nessa camada compósita de som e sentido, de recado discursivo e mensagem para o corpo, curvando-se sob o efeito físico e emocional. No livro, normalmente, não. Ali, a letra está diante do leitor, como duas pessoas sós e, às vezes, constrangidas pelo silêncio.

O desafio dessas diferenças entre o espaço do papel e o espaço do som vem, há anos, instigando certas cabeças e, atualmente, a questão das chamadas “poéticas da voz” vem ganhando corpo e mais corpo. Nomes como Ricardo Corona, Ademir Assunção e Ricardo Aleixo são alguns dos poetas que buscam transitar nas fronteiras mistas e múltiplas da letra impressa e da vocalidade (conforme termo de Paul Zumthor, um dos grandes estudiosos do lugar da voz na produção textual através da história). Não se trata apenas, claro, de uma tentativa de chegar ao mercado, embora não haja nada de mal em a poesia pôr os pés nesse lugar. Afinal, ao contrário do que fazem pensar certas retóricas de economês, o mercado é o lugar dos homens, porque é lugar de coisas que seu trabalho produz. Coisas, inclusive, como o papel, o vinil, a letra impressa e a canção.

Sunday, December 25, 2005

ANTÍDOTO CONTRA A SERVIDÃO

Os huguenotes tentaram se apropriar do sentido daquele livrinho, a lê-lo como um libelo regicida. Outros tentaram outras coisas, vendo ali o que ele não dizia. O recado era simples: só há um remédio contra a servidão. Esse remédio é a amizade. O livro: “Discurso contra a servidão voluntária”. O autor, Etienne de La Boétie, um francês das Luzes.

Eu carreguei o “Discurso...” comigo durante muitos anos, como um embrulho debaixo da roupa, sei lá, algo que deixa a gente meio torto, esquisito, um estranho no meio da vida besta. Aquele texto erudito e límpido, a louvar uma utopia fundada não exatamente no paraíso da igualdade, mas na paridade das diferenças. Os amigos são diferentes, os amigos não são irmãos, não são pai e filho, não são mãe e filho, não fazem parte da confraria das relações sangüíneas. Não. São assim: amigos, uma espécie de antinatureza – contra o que temos de mais humano: a maldade. A amizade: único antídoto contra a servidão.

Etienne escreveu o livrinho para responder a uma pergunta que o atormentava e atormentou outras cabeças das Luzes: por que as pessoas se curvam à servidão, por que essa servidão voluntária? Porque estão imersas numa cultura que desconhece as relações sem o comércio de poderes e violências: a amizade.

Os amigos não são os bons companheiros. Bons companheiros são os gângsteres, sabemos muito bem graças a Martin Scorcese. São, isso sim, quase uma excrescência numa cultura do pega-pra-capar dos vencedores, esse discurso que, nos livros de auto-ajuda, se disfarça de estímulo a seguir em frente.

O livro do Etienne, eu carreguei comigo e disse pra mim mesmo que ele sobreviveria ao resto de dilapidação a que fui recorrendo pra sobreviver, muitas vezes, vendendo livros em sebos no Edifício Maletta, em Belo Horizonte, como um beatnik tardio, um “homem sem profissão”, como disse nosso genial cabotino, Oswald de Andrade.

Eu disse pra mim mesmo, mas acabei aprendendo que havia mentido. Meu exemplar do “Discurso contra a servidão voluntária” acabou voltando pras prateleiras de um sebo. Mas acho que não traí um amigo. Apenas o deixei no caminho pra que outro alguém o pegasse. E não fizesse como os huguenotes. E o lesse como ele é: diferente.

Foi aquele francês que me ensinou que podemos não ser apenas os seres “que fazem sexo e vêem tv”. Nem servos, nem meros companheiros. Nem camaradas. A amizade, meu mano.

Monday, December 19, 2005

Afoxé, aluandê


“Afoxé-Aluandê” é o nome de um blogue de um amigo meu, George Cardoso, baiano de São Jorge de Ilhéus (fundada em 1534 pelo espanhol Francisco Romero, lugar-tenente do donatário Jorge de Figueiredo). Essas palavras têm muito a dizer. Sobre o significado de “afoxé” há controvérsias, mas o antropólogo e compositor Antonio Risério, primo do George, no livro “Carnaval ijexá”, considera bem fundamentada a explicação de que o termo, do universo lingüístico iorubá, significa “palavra que faz acontecer”. Quanto a “aluandê”, a explicação que tenho veio da boca de Muniz Sodré – recentemente empossado como presidente da Biblioteca Nacional, salve, salve, negritude! -, através do bróder da Bahia. O bróder escreveu assim, quando inauguramos um blogue chamado “Armengue Press”, desativado há tempos:

“Esse tempo do improviso foi chamado pelos antigos negros da Bahia de ‘aluandê’, que, no caso da mandinga da capoeira, faz com que a pessoa inverta uma situação: aquele dado por vencido pode sagrar-se vencedor. Mas esse ‘tempo’ não é o mesmo tempo do relógio; é também o que os
gregos chamam de tempo ‘kariótico’, do mito, da improvisação e, até, do amor - ahá!”. É isto: essa fração de tempo que pode virar o jogo.
Iorubá, iorubá.

Movido por esses vocábulos, escrevi uma letra de canção para o músico Babilak Bah, paraibano radicado em Belô, que diz assim: “não é da terra do grão khan/ minha arte de guerrear/ é do colo de Iansã/ é do coro das iabás/ Paraíbas de África / capoeira de orixá/ Iansã, Iansã/ mãiê, ojá!// nem crianças pra sofrer/ nem Pequim pra conquistar/ minha guerra é de orixá”. A louvar uma outra ordem de luta, outra ética, outra poética, outro jeito de jogar.

Toda essa viagem só para falar do “fazer acontecer”, assim, sem armas na mão, e falar também sobre esse tempo de improviso. Essas possibilidades de transformação que colho lá, no fundo da cultura da negritude, que, como bem disse o bróder baiano, foi um tanto recalcada em Minas.
E transformação é um assunto que, volta e meia, vem à tona em um papo ou outro em algum canto de Monlevade, num boteco, num corredor de faculdade. A última vez que me lembro, o papo rolou assim meio ao acaso – aluandê! –, exatamente em um corredor de faculdade. Uma ex-professora minha disse que, aqui na cidade, as pessoas iniciam coisas e acabam por abandoná-las, vencidas pelo cansaço, por dar murro em ponto de faca. Eu, com Rosália Oliveira, do lado, comentei: bom, nós continuamos no caminho. E pus o pé num abre-caminho invisível.
Apesar desse peso do aço na alma – que pode também nos dar singularidade, como o ferro na alma de Drummond, o itabirano com olhos para além do Pico do Cauê -, é possível, sempre, aquela inesperada mandinga da capoeira, o jogo que muda o jogo. Upa, neguinho!

Por mais cansados que estivermos, dá, sempre, para emitir pelo menos um suspiro, essa forma embrionária da palavra que – quem sabe? – pode fazer acontecer. O afoxé nosso de cada dia, nesse pedaço de Minas.

(ilustração: pintura de Abdias Nascimento)

Monday, December 12, 2005

Este lugar, lugar algum

[Wir Caetano]

Meses atrás, em atendimento a um convite para formatar um projeto de curso de extensão para a Fundação Comunitária Educacional e Cultural de João Monlevade (Funcec), propus a discussão da produção literária nos “circuitos periféricos”. A intenção era estimular reflexões críticas sobre as condições de produção de textos literários fora dos grandes centros urbanos (que concentram os principais atores da cena literária e do mercado editorial) e os meios (técnicos ou não) que, atualmente, permitem a flexibilização da relação centro/periferia.

Ora, não é apenas o capital que pôs abaixo as fronteiras e diluiu os territórios, na tal globalização (hoje não tanto na ordem do dia do discurso da mídia, por certa saturação, é verdade). Não foram apenas as elites e seus programas que orientaram a nova cena. Uma outra noção de território, a unir as cabeças à margem do “main stream” – como queria o geógrafo Milton Santos (1926-2001), uma das grandes cabeças do Brasil -, para além das fronteiras geográficas que dependem dos ônibus, carros e aviões, já é realidade há tempos. Não vejo porque, por exemplo, achar estranho que o escritor Luiz Vilela tenha optado por deixar Belo Horizonte e ir viver em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Ora, hoje, estar no quintal não é estar fora do mundo. Tanto faz: Monlevade, Itabira ou Bela Vista Minas. Aqui é acolá.

Foi um pouco desse espírito de “outra globalização” que tentei inscrever em Monlevade quando, no começo do ano, assumi a função de produtor cultural no bar e restaurante Empório Jubiabá. Não foi à toa que o primeiro evento levou à casa o senegalês Ibrahima Gaye – que, em outubro, participaria da programação paralela da semana em homenagem a Drummond, em Itabira – e pôs no cenário do bar o discurso sobre ancestralidade africana e contaminação literária África/Brasil. Não foi à toa também que, mais tarde, tentei – e não funcionou muito bem, por incidentes, de ordem pessoal – discutir, no mesmo local, as relações entre rap, cordel e samba.

É que os meios técnicos – e a conjuntura histórica, diga-se – estão aí, para serem apropriados e permitir que velhas limitações “desmanchem no ar”. Sei que muita gente odeia o rap, mas é o melhor exemplo de apropriação de bases técnicas para produzir música e ganhar o mercado a partir da periferia. O rap, disse muito bem o DJ Luciano, meu “bróder”, é pura metalinguagem: linguagem se apropriando de linguagem. No caso, apropriação de bases rítmicas melódicas alheias e recriação a partir da “parafernália” dos DJs. Em busca da batida perfeita.

Na literatura, não é muito diferente. A escrita híbrida de vários autores brasileiros contemporâneos, boa parte deles à margem das grandes editoras, também é um produto dessa onda (no sentido de fluxo e não de moda) de contaminação que tem estado no coração da cultura.
Essas questões precisam estar em pauta nas salas da faculdades de letras do interior. Porque, apesar de tudo, ainda persistem vozes que insistem na impossibilidade de produzir qualidade no quintal de nossa casa. Quintal?, ora bolas! Todo lugar é lugar, e todo lugar é nenhum.